


(Foto:Rui Gonçalves)
Dia desses eu estava devaneando sozinho já a altas horas, coisa rotineira na vida de quem tem insônia. Nessas horas sempre me da uma vontade de sair de casa, dar umas voltas pelas ruas e avenidas da cidade, de boteco em boteco, observando os seres noturnos que perambulam por ai. Nessa noite em especial eu estava a recordar da rodoviária velha aqui da minha cidade. Estava recordando do lugar e seus freqüentadores. Aquela gente maluca e desiludida com a vida que circula por lá, todo aquele sofrimento estampado nos rostos das prostitutas e daquele bando de perdedores. Na praça(bem em frente aos botecos), tem uma espécie de coreto, onde nos finais de semana sempre aparecem uns crentes malucos com caixas de som e toda uma parafernália eletrônica. Eles ficam cantando e orando em altos brados, enquanto outros seres da mesma tribo se aglomeram numa arquibancada pra acompanhar a “pregação”. Eu já percebi que o medo que eles tem do tal de demônio é muito maior do que a fé naquele outro, o tal do criador. Ao mesmo tempo, na mesma praça, você percebe se esgueirando pelos cantos, viciados e “malfeitores” de toda espécie. Esses sim, na minha opinião são demônios em pessoa(alguns por opção, outros talvez por desilusão). São mortos vivos desfigurados pela droga, desiludidos pela vida e desapropriados do amor próprio. Dizem as pessoas “do bem”, aqueles que andam bem vestidos, tem um bom trabalho, ajudam o próximo e vão a missa aos domingos, que a polícia deveria acabar com tudo aquilo(Só que esses não põem o pé naquelas bandas). Eu não concordo. Creio que toda aquela fauna tenha uma razão de ser, todo aquele disparate e vida marginal, não é vivida só por “falta de chance”, ou o que o valha. Tem muita gente ali que adora viver assim. Eu gosto de lá. Gosto do copo mal lavado, da cachaça a R$ 0,50, da graça das putas velhas(de dar dó), do churrasquinho de gato. Gosto daquela gente feia que não tem nada a perder na vida, a não ser a própria vida. gosto da fauna da velha rodoviária e de seus personagens bizarros. Aquilo tudo me cheira a Charles Boudelaire. É dor pura. Poesia de um maldito. Mas é gente, é vida, é belo.
Ouvindo - *The Clash*